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As influências de C. S. Lewis

Glauco Filho, estudioso da obra do autor, analisa A biblioteca de C.S. Lewis

Por: Por Glauco Barreira Magalhães Filho

A experiência religiosa de C. S. Lewis se destacou não apenas por ter sido um intelectual ateu que superou a incredulidade, mas também por aquilo em que ele se tornou como resultado de sua fé, apresentando ao mundo sua perspectiva cristã através de vários estilos literários. Foi tanto filósofo como poeta, pois nele se conjugaram razão e sensibilidade, lógica e imaginação. A perda da mãe na infância e a dificuldade de relacionamento com o pai foram fatores que o aproximaram do irmão quando os dois eram crianças. Eles gostavam de compartilhar a leitura dos livros que se distribuíam por todos os espaços da casa, que inspiravam uma atmosfera fértil para a imaginação.

Não é possível compreender C. S. Lewis e seus escritos com profundidade, senão dentro do amplo escopo de suas leituras. A Biblioteca de C. S. Lewis, uma compilação feita por James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, é a oportunidade de suprirmos a lacuna resultante do desconhecimento das obras que influenciaram o escritor irlandês. Lewis testemunhou a ocorrência de uma profunda experiência que tivera ao ler uma obra de George MacDonald acerca da importância da fantasia. Ele chegou mesmo a dizer que teve o seu "batismo de imaginação" naquela ocasião.

No século XVII, os puritanos valorizaram muito obras religiosas alegóricas, como O peregrino, de John Bunyan, e O paraíso perdido, de John Milton. Esses autores puritanos também exerceram grande influência sobre C. S. Lewis, que chegou, inclusive, a prefaciar uma publicação de O paraíso perdido, além de ter escrito uma versão pessoal sobre O retorno do peregrino. Lewis, por outro lado, recebeu inspiração de Martinho Lutero para desmascarar o diabo com a literatura irônica e sarcástica de Cartas do diabo ao seu aprendiz. No estilo de Dante Alighiere, fez representações ilustrativas do estado eterno das almas em O grande abismo.

Assim como seu contemporâneo J. R. R. Tolkien, pertencia aos Inklings, grupo de catedráticos que discutia literatura, filosofia e, principalmente, mitologia. Tolkien não valorizou As crônicas de Nárnia, pois não gostava de alegorias. Lewis, porém, achou fantástica a obra-prima O senhor dos anéis. O próprio Tolkien credita a Lewis o estímulo que lhe possibilitou concluir a obra. Como filósofo, Lewis foi profundamente influenciado pela gnosiologia (teoria do conhecimento) de Aristóteles. O filósofo grego defendia um conceito objetivo de verdade: um pensamento é verdadeiro quando corresponde à realidade. Na linha aristotélica, combateu o relativismo e o ceticismo. Em seu livro A abolição do homem, refutou a teoria subjetivista acerca dos valores.

No campo da teologia, se rendeu ao pensamento de Santo Agostinho, mas ampliou o estudo do amor de modo a envolver também as dimensões romântica e sexual. Com o Doutor de Hipona, defendeu a lei natural inscrita na razão humana, como se pode ver em Mero cristianismo. Com os místicos cristãos da Idade Média, Lewis admitiu ser Deus um ser inefável, sendo que somente pela linguagem metafórica poderíamos nos comunicar acerca dele. A partir do pensamento filosófico de Rudolph Otto, Lewis, em seu livro O problema do sofrimento, explicou Deus como o ser numinoso, isto é, a essência pura diante da qual sentimos espanto e fascínio. Foi também um profundo admirador de G. K. Chesterton, considerado por ele um exemplo de sobriedade.

Que os leitores agora possam aproveitar a chance de passear entre os muitos livros espalhados por toda parte na casa de C.S. Lewis!

Glauco Barreira Magalhães Filho é pastor da Igreja Batista Moriá em Fortaleza e autor de O imaginário em "As crônicas de Nárnia" (Mundo Cristão)